Felizes são os peixes!
19 novembro, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Leitura: Sermões do Padre Antonio Vieira
Fecho os Sermões e abro o jornal (quem mora só tem tempo de ler essas coisas); melhor que não o fizesse. Há uma troca imposta pelas manchetes da imprensa, um impositivo da realidade diária que nos cobra atualidade nas conversas. Penso que um leitor atento deve perceber como tudo é articulado para funcionar como uma grande máquina de marketing em que se constrói e se destrói a qualquer um e qualquer coisa. Podemos encontrar tentativas explícitas de destruir os valores, em que autores posam – ora de vítimas, ora de instrutores – como se estivéssemos diante de uma tese de marketing (demarketing ou unselling) e não de questões éticas.
Padre Vieira em seu sermão aos Peixes, cansado de tentar falar aos homens, dirige-se aos peixes com o desconsolo de saber que “gente pode ser peixe que se não há de converter”.
Vós, diz Cristo, Senhor nosso falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa da corrupção?
Ou é porque o sal não salga ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque
a terra se não deixa salgar e os ouvintes preferem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.
Não é tudo isto verdade? Ainda mal! Permitindo-nos comparar os homens aos peixes, ressaltando que estes são melhores ouvintes, Vieira primeiro exalta as virtudes, para depois açoitar-nos os vícios. Quando deita-nos repreensão sinto-me sem inspiração, empurrado a citar Santo Agostinho numa metáfora zoólogica: ‘são piores os homens que os corvos’.
A carnificina que a realidade impõe também diante do espetáculo das câmeras de TV, demonstra e prova que os corvos estão de novo soltos em nossa terra. Ao ouvir a apresentadora pseudo-anglo em horário nobre, me pergunto se alguém morrerá com o ‘alheio atravessado na garganta’ como na história do peixe que Pedro pesca com a moeda de prata presa à garganta.
Felizes são os peixes, me chega aos ouvidos, emulando a infância da filhinha que, ao ouvir canção titânica entoada pelo pai, imagina-o como lançando as mesmas redes que o pescador inepto tentasse lançar ao mar de conhecimento em que navega.
Infelizes são os homens. É o que rezam essas linhas fundadas num misto de revolta e asco diante da realidade. Sentimentos que se unem ao sentimento de decepção e juntos dão a tônica dos dias atuais diante dos brasileiros que se dispõem à leitura do jornal diário acompanhando as páginas da vida. Melhor seria voltar ao velho e sábio Vieira e renunciar à articulação de tão perniciosa realidade.
Algumas lições com o bobo da corte
17 novembro, 2006 Categoria: Filosofia barata Nenhum Comentário »
Conta-se que numa pequena cidade do interior um grupo de pessoas se divertia com o idiota da aldeia. Um pobre coitado de pouca inteligência, que vivia de pequenos biscates e esmolas. Diariamente eles chamavam o bobo ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas – uma grande, vistosa e brilhante de 400 réis e outra menor, sem brilho mas que valia 2 mil réis. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos. Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e lhe perguntou se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos.
- Eu sei (respondeu o não tão tolo assim), ela vale cinco vezes menos mas no dia em que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minha moeda…
Pode-se tirar várias conclusões dessa pequena narrativa, veja pelo menos duas:
1. Quem parece idiota, nem sempre é.
2. Se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda.
Mas a conclusão mais interessante, a meu ver, é a percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito. Uma boa imagem é essencial, claro, mas o que importa não é tão somente o que pensam de nós mas o que realmente somos.
Quais eram os verdadeiros tolos da história?
Como postar um comentário na nova Internet do senador Eduardo Azeredo
16 novembro, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
1. Vá a uma papelaria e compre um Formulário Padrão de Envio de Conteúdo para a Internet.
2. Preencha o formulário em três vias indicando seu nome, endereço, RG, CPF, o site para o qual você quer enviar o conteúdo e o comentário que você quer que seja postado online. Não esqueça de assinar.
3. Vá para o cartório e faça reconhecimento de firma e cópias autenticadas do RG, CPF, e certidão de nascimento.
4. Vá à nova agência governamental de controle da Internet.
5. Peça a um amigável funcionário público para carimbar o seu formulário. Ele vai pedir seu RG, CPF, Título de Eleitor, Carteira de Trabalho, Certificado de Antecedentes Criminais, Carteira de Motorista, um comprovante de endereço, o Certificado de Reservista e algum documento que você não se lembrou de trazer mas sem o qual nada pode ser feito.
Volte o dia seguinte com o documento que você não trouxe no dia anterior. Não preste muita atenção para o fato de que o funcionário público não pediu esse documento hoje.
7. Vá ao correio e envie o formulário carimbado, com registro e AR, para o dono do site.
8. Após duas semanas, visite o site e verifique se seu post altamente intelectual e original foi aceito.
9. Comemore sua Internet livre de predadores do orkut!
Quadrinho bônus/director’s cut: O senador Eduardo Azeredo trabalhando incansavelmente em novos projetos para a melhoria do Brasil.
via Infoescravo
Aprenda com a retórica de Roberto Jefferson
15 novembro, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Poucos falam como Roberto Jefferson Monteiro Francisco. Como poucos, ele serve-se de sentenças e expressões ornamentais, como: “política farisaica do PT”, “manifestações populares eloqüentes que me aquecem o coração”, entre outras tantas. Roberto Jefferson não fala — perora. Há um ano, durante as CPIs instaladas por sua causa, o país se rendeu à sua oratória. Do presidente da República ao motorista de ônibus, todos ficaram pendurados nas suas palavras.
Seu vocabulário é manuseado com cuidados de relojoeiro. Pinça sempre as palavras mais raras que tem à disposição. Sobre a maneira como o então deputado federal Geraldo Alckmin se desincumbiu de uma missão que ele lhe confiara, afirma: “Ele se houve maravilhosamente bem”. Tem grande admiração pelo explorador britânico Sir Ernest Shackleton: “Que têmpera! Que irredentismo!”. Shackleton enfrentou a impiedade do mar antártico. Jefferson não fala em ondas; prefere um sinônimo precioso: vaga. Não é acho, é creio.
Dia 29 de outubro, quase 16 horas. As urnas irão se fechar em breve. Jefferson solta um alea jacta est, chama o Edu, entra no carro e vai visitar o pai. Roberto Francisco é um homem de 72 anos, professor aposentado de matemática. É elegante, forte, vivaz. Tem um rosto redondo, um bigode à antiga e cabelos imaculadamente penteados para trás. A barriga é pronunciada, a voz é tonitruante como a de um barítono. Roberto Francisco a emprega para declamar poesias. Há 30 anos preside a União Brasileira de Trovadores. “Meus amores de menino/ dos belos tempos de antanho/ me foram forja do destino/ com têmpera, sem tamanho”.
Trata dona Neuza, mãe de Jefferson, de mãe; ela o trata de papai. São casados há 55 anos. O estilo Roberto Jefferson não existiria sem o professor Roberto Francisco. Meu pai, Ibrahim, me obrigava a aprender um novo vocábulo por dia, com pelo menos cinco sinônimos. Nos dias de aniversário, tínhamos de escrever sonetos para o aniversariante. E éramos forçados a discursar por cinco minutos sobre temas irrelevantes: um copo, a maçaneta, um grão de feijão. Aprendíamos a manter o interesse do ouvinte, a erguer a voz na hora certa, a pontuar a fala com pausas dramáticas. Tomei gosto pela língua. Era o melhor dos alunos. Só uma vez falhei. O professor pediu que eu lhe desse o imperativo positivo de resfolegar. Respondi: “Resfólega tu, resfolegai vós”. Errei. Na época, o verbo ainda era irregular. O correto era resfolga tu. Tudo isso passei a meus filhos.
Desde cedo, Jefferson aprendeu a salpicar drama nas suas falas. Era cobrado nas disciplinas de oratória e retórica. Nas CPIs, não improvisava. “Na véspera, à noite, eu fazia prelibações…” Sopesava imagens, sentia o gosto das metáforas. Recordava os parnasianos.
Roberto Jefferson cresceu entre as trovas do pai e as lições do avô Ibrahim. Certa vez, em dia que chuviscava, avô e neto caminhavam quando viram um homem que regava uma planta. O avô perguntou: “O que você vê, meu filho?”. “Um homem regando plantas, vovô”. “E o que cai do céu?” “Chuva” “Então dirija seus olhos para a catedral de Petrópolis e dê graças a Deus. A vida é uma competição, e um homem que rega plantas em dia de chuva jamais será seu adversário. Um a menos.”
O professor Francisco não hesita um só instante antes de responder quem é o seu poeta do coração: “Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac — um alexandrino perfeito até no nome”. É também o poeta predileto de Roberto Jefferson. O pai pergunta ao visitante se ele conhece A alvorada do amor. Não. O professor suspira, toma fôlego, apura a voz, ergue a mão e começa: “Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo…”. Roberto Jefferson sobrepõe sua voz: “…no dia do Pecado amortalhava o mundo”. Pai e filho vão até o fim dos 43 versos. O pai tem os olhos marejados. O filho olha com admiração para o pai. Seu mestre.
Pela visão de João Moreira Salles
A caridade, o perdão e a falácia de Goldhagen
14 novembro, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Caridade. Esta é uma palavra aparentemente simples, mas é uma das coisas mais difíceis de se exercitar. Pessoalmente confesso que estou em falta com a caridade, sei que é um pecado – ainda mais para mim que tento ser um cristão novo exemplar (meio caminho, afinal já sou macho, adulto e branco). Mas ser cristão é isso: tentativa atrás de tentativa.
Andei lendo uns textos que me motivaram a pensar muito sobre isso; escritos que servem para fazer compreender terríveis acontecimentos com novos olhos – os olhos de alguém que sabe que este mundo não vale nada e o homem – bem, como diria Hamlet, man delights me not.
Mas um texto em particular publicado na The American Conservative me chamou à atenção, dizendo das besteiras que o Daniel Goldhagen escreveu sobre o papa Pio XII. Lá o autor do artigo foi direito ao ponto: Deveria fazer com este sujeito o mesmo que os muçulmanos fizeram com Salman Rushdie – dar umas porradas ou uma boa fatwa para ele calar a boca. Mas os católicos são bonzinhos demais e deixam idiotas maliciosos como Goldhagen propalarem mentiras. Aliás, o texto é bem esclarecedor por mais um motivo: ele explica que a trama para caluniar Pio XII teria vindo de um tal alemão chamado Rolf Hochhuth, integrante da Juventude Hitlerista, que teria se rebelado contra o nazismo para avisar o Vaticano sobre o Holocausto, e o papa teria ficado indiferente. Isso mesmo, fofoca em ritmo de metralhadora israelense. Plantada em Harvard, claro.
Ora, será que alguém ainda não sabe que nunca se pode confiar em sujeitos que tiveram contatos com o Nazismo?!
