Você é um blogueiro ou um autor?

12 outubro, 2006    Categoria: Conversa fiada    Nenhum Comentário »  

O ato de escrever na Internet trás sempre o risco de virar colagem. Não somente no sentido dos plagiadores que vivem de CTRL+C/CTRL+V, mas no fato de que dez idéias pesquisadas e agrupadas não formam uma idéia original; e estamos carentes de idéias originais.

Onde fica a bagagem cultural de cada um? Para que diabos serve assistir milhares de filmes, ler toneladas de livros, conhecer todo tipo de pessoa, se quando precisamos escrever sobre uma música que gostamos partimos para pesquisar vida e obra do autor, colocando da inspiração inicial ao número de versões gravadas por cantores canhotos da Birmânia Oriental, e esquecemos de dizer o que NÓS achamos da canção?

Tenho visto textos e artigos cada vez mais complexos, elaborados e informativos mas completamente sem alma.
A impressão é que o autor se esconde por trás de sua biblioteca, gerando conteúdo informativo sem nenhum toque pessoal. Entendam, blogueiros, não queremos só fatos; fatos nós conseguimos no Google. Ou, com sorte, na Wikipedia. Leitores de blogs querem alma. Muito provavelmente um teste pedindo para correlacionar dez posts de dez blogs diferentes, frequentados por um leitor, resultaria em um monte de notas zero.
Sinto falta de um estilo, e essa é a diferença entre o Veríssimo e a Joaninha Querência, de Miracema do Norte, que acabou de criar um Blig e espera ser descoberta pela Cia. Das Letras em mais ou menos uma semana. Note que estilo não é escrever errado. “naums” e “miiiga kicetá venduuu hoji??” não é estilo, é analfabetismo. Para escrever errado direito primeiro você tem que aprender a escrever corretamente.

Antes da Internet, o Veríssimo nem precisava assinar seus textos, todo mundo reconheceria sua marca. Idem com o Carlos Eduardo Novaes. Rubem Fonseca, entre outros, também estão no mesmo barco. Entre os cronistas diários, um texto do Paulo Francis era inconfundível, assim como um do Elio Gaspari. As colunas de TV do Rogerio Durst quando escritas por um substituto ficavam gritantes em sua diferença. Na TV um outro bom exemplo é a dupla Alexandre Machado / Fernanda Young. Em Os Normais era evidente quando o epsiódio era escrito por um ou por outro, embora os créditos sempre viessem em nome dos dois.
Na internet, entretanto conto nos dedos de uma das mãos os blogs dos quais um texto pode ser pinçado e o autor identificado após dois ou três parágrafos. A impressão que tenho é que os autores não maturaram o bastante para criar um estilo pessoal ou, no caso dos mais antigos, não se deram esse direito, em nome da objetividade, da agilidade, de San Ctrl C, Pachamama, sei lá.

Um efeito interessante gerado a partir disso é que os textos acabam gerando fidelidade de leitores para o blog, não para o blogueiro. Não é comum você ver por aí “autor-convidado fulano de tal”, e sim “fulano de tal, do blog tal”.
Ou seja: O sujeito cria um blog de sucesso, com excelente visibilidade, mas não consegue capitalizar para si o sucesso, mesmo com o blog sendo uma iniciativa totalmente pessoal. Eu entendo quando falamos de um daqueles blogs-repartição em tempo de eleição, com 68 membros ativos, 123 colaboradores eventuais e metade da população da Guiné Equatorial como “Membro VIP”. Só que não faz sentido se referir ao Veríssimo como o “Veríssimo do Analista de Bagé”.
Alguém se refere a “J.K. Rowling, Autora de Harry Potter” em grupos de fãs de Harry Potter? Alguém usa “Gene Roddenberry, criador de Star Trek” em materiais destinados a trekkers? Então por que diabos nos blogs brasileiros todo mundo precisa de um anexo ao nome para ser reconhecido?

Pelo mundo a fora temos Cory Doctorow, Xeni Jardim, Madoxx, John Dvorak e vários outros, jornalistas e blogueiros que são individualmente reconhecidos, independente dos veículos em que escrevem.
Eu credito isso à necessidade de ser aceito e à preocupação em não ofender nenhuma sensibilidade. Isso gera textos politicamente corretos, inofensivos e com pouco ou nenhum tempero. Convenhamos, o Jamie Oliver não iria muito longe fazendo programas só sobre frango grelhado.
Acho isso tudo uma grande oportunidade perdida, principalmente por quem pretende viver de escrever para veículos “de verdade”. O blog será sua última chance por muito tempo de exercer seu próprio estilo, experimentar e descobri-lo. Nenhum foca ganha uma coluna, nenhuma matéria policial pode começar como O Falcão Maltês, e seu editor vai demiti-lo se se referir à Petrobras como Petrosauro, por mais merecido que seja. O Blog é uma oportunidade e tanto, fornece um feedback dos leitores maior do que qualquer outra mídia, é excelente para polir seu estilo, exercitar suas variações e, essencialmente, aprender a escrever.

Embora haja gente vendendo livretos no estilo “Aprenda a escrever como um Mestre em 30 segundos”, a dura realidade é que ninguém escreve direito se não:

1 – Ler muito
2 – Escrever muito

A primeira parte é fácil, a segunda demanda motivação. Escrever para guardar na gaveta é um processo muito longo, embora funcione. Já escrever e publicar (possível hoje com os blogs) garante críticas instantâneas que fatalmente irão ajudar a moldar seu estilo, apontar seus erros e aprimorar seus acertos. Com isso os publicitários, estudantes de jornalismo e similares realizarão o sonho de qualquer diretor de redação: um estagiário que saiba escrever.

Obrigado, Cardoso. Deus o conserve contraditorium.


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Nenhum Comentário para “Você é um blogueiro ou um autor?”

  1. Mara Pupin disse:

    Um grito de alerta seu texto, porem como eu costumo dizer: o meio termo é sempre a medida certa!

  2. Mara Pupin disse:

    Compartilho da sua conclusão e reafirmo, o que importa é a essencia! Bom ler voce!

  3. Tata disse:

    O blog tá lindo, o texto tá bacana e você é show!
    Aquela mesma, do Kit Básico da Mulher Moderna

  4. Eduardo Tetera disse:

    E você é legal! hahahha

  5. cartney disse:

    Ótimo texto. Pena que ao passo que seu blog faz esse alerta, outros 50 usam San crtl C. Infelizmente.

  6. Renata disse:

    Vote no LEITURA DINÂMICA!

    Vc vai encontrar Televisão e vai votando até chegar no Leitura Dinâmica. Tem tb a CRISTINA LYRA para melhor apresentadora de esportes. A gente agradece! bjs

    http://www.premioqualidadebr.org.br/votacao2006riosp/

  7. Diogo Bonifácio disse:

    É mas, as críticas instantâneas só irão moldar o estilo do sujeito se ele, além de ler e escrever muito, puser em prática uma terceira:
    Saber OUVIR.

    forte abraço e sucesso

  8. Cátia aka Isobel disse:

    Infelizmente, nos dias que correm, as pessoas têm mais facilidade em remeter as suas ideias para links de alguém que já escreveu sobre um certo assunto, do que defender as suas próprias ideias.
    E ser-se atacado pelo politicamente incorrecto não é algo para que muitos estejam preparados.
    Sinceramente, concordo com a ideia de que a escrita sem alma, sem o contributo pessoal de quem escreve, é vazia e sem interesse.
    A escrita pela escrita, torna-se apenas um amontoado de letras.
    Acho que escrever com fogo e personalidade não significa ser-se apenas muito inteligente (em termos de QI), significa ser-se inteligente em termos de QE.

  9. Cris Caetano disse:

    O questionamento é bastante interessante. Qdo vc diz “o que NÓS achamos…”, lembrei que tive muitas dúvidas sobre dar minha opinião no meu “Nuvens”, depois a coisa foi fluindo, porque não é sempre que consigo ler sem dar opinião.
    Mas ao mesmo tempo que concordo contigo acho que pode acontecer de muitos terem criado um blog sem pretensões literárias. Gostei de saber que assistes ao Jamie Oliver ;)

    E tenho lá no blog um presente pra ti dos anos 80, espero que gostes. :)

  10. Jeferson Leandro Milani disse:

    Mais um excelente texto. Gostei, especialmente, desta análise: “[...]Isso gera textos politicamente corretos, inofensivos e com pouco ou nenhum tempero”.

    Espero que eu não soe assim em meus textos, posto que julgo que é difícil, para o próprio autor, reconhecer o quanto de sua voz há em seus escritos. Abraços!

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