Escola de Escândalo
16 outubro, 2006 Categoria: Cultura & estrutura Nenhum Comentário »
Disco perdido
EMI – 1986
Produção: Philippe Seabra
Uma das grandes bandas do rock brasileiro na década de 80 jamais alcançou o sucesso merecido, numa daquelas grandes injustiças da história, ninguém sabe se por ironia ou por uma afronta do destino. A Escola de Escândalo, formada em 1983, é uma das grandes referências brasilienses no cenário do rock brasileiro, embora jamais tenha alcançado a projeção que suas bandas-irmãs tiveram – Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude.
O grupo, cuja “formação clássica” era Bernardo Mueller (voz), Geraldo “Geruza” Ribeiro (baixo), Luiz “Fejão” Eduardo (guitarra) e Eduardo “Balé” Raggi (bateria), foi um dos pioneiros na cena oitentista, fazendo um crossover maravilhoso entre o heavy metal e o punk – se é que isso existe. A banda nunca gostou de rótulos e se destacava pela brilhante cozinha de Geruza e Balé, a guitarra fenomenal de Fejão e a elegância da voz de Bernardo, que também era o responsável pelas letras da banda, outro ponto forte da Escola.
Passaram pela banda outros músicos locais, como Marielle Loyola, que dividia os vocais com Bernardo e, posteriormente, integrou outras duas importantes bandas brasilienses – Arte no Escuro e Volkana. Outros dois bateristas também fizeram parte da Escola, antes de Balé assumir as baquetas: Alessandro e Manuel Antônio Fragoso, o Totoni, que hoje trabalha como ator no Rio de Janeiro.
Antes de formarem o grupo, Bernardo e Geruza integravam, ao lado de Alessandro (bateria) e Jeová Stemller (guitarra) o grupo XXX, que liderou o movimento punk brasiliense ao lado da Plebe Rude no início dos anos 80 e realizou – junto com Legião Urbana, Capital Inicial, Banda 69 e a própria Plebe - a série de shows antológicos na Temporada do Teatro da ABO, em abril de 1983, já comentados aqui no blog.
Da banda XXX, que tinha o som mais pesado entre os seus grupos contemporâneos e que mais se aproximava ao punk feito em São Paulo e no Rio, a Escola de Escândalo herdou grande parte do seu repertório inicial, como Caneta Esferográfica e Menino Prodígio. A antiga banda de Bernardo e Geruza resolveu encerrar suas atividades quando o guitarrista Jeová saiu. Antes disso, o grupo conseguiu participar de um programa na televisão local, chamado Brasília Urgente.
Bernardo ainda atuou no lendário filme Ascensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus, dirigido por Gutje Woorthman, baterista da Plebe Rude, e que ganhou o prêmio de um Festival de Cinema Super 8 de Brasília. Neste média metragem de aproximadamente 40 minutos, o jovem Bernardo, irmão de André [Diablo] X, da Plebe, protagonizava o vilão que roubava os plebeus no final do filme, que tinha a narração de Renato Russo. O líder da Legião Urbana também trabalhou como “ator” fazendo o papel de empresário inescrupuloso da Plebe.
Foi durante as apresentações no Teatro da ABO que Bernardo e Geruza conheceram Fejão, um guitarrista muito conceituado em Brasília e que tocava na banda Nirvana, liderada por Tadeu, futuro vocalista do grupo Beta Pictoris. Juntos, os três – mais o baterista Alessandro – começaram a ensaiar, trabalhando numa alquimia que refletia os gostos musicais de cada, algo que parecia impossível de ser tentado. As influências eram díspares: Van Halen, Led Zeppelin, Metallica, Echo and The Bunnymen, The Beat, Police, Talking Heads e Xtc, além de bandas de ska.
Naquele mesmo ano, o grupo saiu de Brasília para fazer suas primeiras apresentações no Rio de Janeiro, que há pouco tempo já tinha descoberto o rock brasiliense, pelas mãos de Herbert Vianna e Os Paralamas do Sucesso. A Escola fez o circuito das danceterias e casas de rock – Circo Voador, Noites Cariocas, Parque Lage, Mamão com Açúcar. Ali, trataram logo de encaminhar demos para as rádios Fluminense e Estácio, mostrando Luzes, que depois veio a constar do disco Rumores, lançado pelo Sebo do Disco em 1985. A música passou a liderar a parada de sucessos da maldita Flu durante um bom tempo.
Logo depois, o grupo entrou no pau-de-sebo Rumores, uma produção independente lançado pelo Sebo do Disco, ao lado das bandas Finis Africae, Detrito Federal e Elite Sofisticada. As duas músicas apresentadas neste disco da Escola eram Complexos e Luzes, que tiveram boa execução em Brasília e em algumas rádios do Rio. O disco foi gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte, e hoje é peça de colecionador. A vocalista Marielle deixa o grupo em 1986. O sucesso Luzes foi relembrado pela Plebe Rude e consta do disco ao vivo lançado pela banda em 2000, “Enquanto a Trégua Não Vem”.
O namoro com uma gravadora não demorou e pelo menos duas ofereceram assinatura de contrato e a gravação de um disco. A banda, prontamente, recusou. Os quatro optaram por aguardar um momento mais oportuno para gravar seu disco.
Os amigos da Plebe e da Legião, juntamente com Herbert Vianna, pressionam a EMI-Odeon para um contrato com a Escola. A gravadora se dispõe a colocar os quatro no Estúdio 3 e Philippe Seabra produz as gravações para o disco, que seria lançado no formato de Mini-LP, tal qual a Plebe e a paulistana Zero haviam feito. As cinco canções registradas no que é chamado o “disco perdido” do Escola, são: Atrás das Palavras, Deuses e Demônios, O Grande Vazio, Pérolas Sem Valor e Só Mais Uma Canção. Infelizmente, o disco acabou não rolando.
Pouco tempo depois disso, a banda encerrou suas atividades, para desespero dos fãs e falta de percepção das gravadoras, que ajudaram a acabar com um dos mais dignos e inteligentes grupos de rock de todos os tempos. Bernardo Mueller, que virou economista, é hoje professor da Universidade de Brasília. Geruza tornou-se produtor de estúdio, tendo trabalhado durante muitos anos no famoso Artimanha, de propriedade do guitarrista Toninho Maia. Balé fez as malas, partiu para os Estados Unidos, onde trabalhou em artes gráficas e voltou para Brasília, onde montou a banda Resistores, com trabalhos gravados no estúdio Daybreak de Philippe Seabra e produção também do Rude Plebeu.
Já o guitarrista Fejão abraçou novo trabalho, mais calcado no heavy metal – com elementos do pós-punk -, liderando a banda Dungeon, que chegou a lançar um disco pelo selo Rock It! [projeto tocado por Dado Villa-Lobos e André X]. Morreu em 1995, em Brasília, sem ver a obra do Escola reconhecida no mercado fonográfico.
Leia também o texto no Radicaos de Olimpio Cruz Neto.
A arte de contar estória em cinco frames
16 outubro, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Conte uma estória em 5 frames [Tell a story in 5 frames] é um grupo muito interessante do Flickr com alguns dos membros mais criativos que tentam criar e narrar uma estória com o auxílio de apenas cinco fotografias diferentes.
Por exemplo, a colagem mostrada aqui é provavelmente um dos sets mais populares no 5 Frames e tem um título original e bem apropriado para a seqüência: Gender Miscommunication. Simplesmente brilhante e gozado ao mesmo tempo.
As únicas palavras que podem ser usadas são as que formam o título e apenas as fotografias é que dão vida à estória. Sem descrições nem legendas. Quem é membro pode postar estórias com três ou até uma foto, se quiser. Qualquer pessoa pode entrar para o grupo.
Flickr – Visual Story - [via Infoescravo]
Você é um blogueiro ou um autor?
12 outubro, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Onde fica a bagagem cultural de cada um? Para que diabos serve assistir milhares de filmes, ler toneladas de livros, conhecer todo tipo de pessoa, se quando precisamos escrever sobre uma música que gostamos partimos para pesquisar vida e obra do autor, colocando da inspiração inicial ao número de versões gravadas por cantores canhotos da Birmânia Oriental, e esquecemos de dizer o que NÓS achamos da canção?
Tenho visto textos e artigos cada vez mais complexos, elaborados e informativos mas completamente sem alma.
A impressão é que o autor se esconde por trás de sua biblioteca, gerando conteúdo informativo sem nenhum toque pessoal. Entendam, blogueiros, não queremos só fatos; fatos nós conseguimos no Google. Ou, com sorte, na Wikipedia. Leitores de blogs querem alma. Muito provavelmente um teste pedindo para correlacionar dez posts de dez blogs diferentes, frequentados por um leitor, resultaria em um monte de notas zero.
Sinto falta de um estilo, e essa é a diferença entre o Veríssimo e a Joaninha Querência, de Miracema do Norte, que acabou de criar um Blig e espera ser descoberta pela Cia. Das Letras em mais ou menos uma semana. Note que estilo não é escrever errado. “naums” e “miiiga kicetá venduuu hoji??” não é estilo, é analfabetismo. Para escrever errado direito primeiro você tem que aprender a escrever corretamente.
Antes da Internet, o Veríssimo nem precisava assinar seus textos, todo mundo reconheceria sua marca. Idem com o Carlos Eduardo Novaes. Rubem Fonseca, entre outros, também estão no mesmo barco. Entre os cronistas diários, um texto do Paulo Francis era inconfundível, assim como um do Elio Gaspari. As colunas de TV do Rogerio Durst quando escritas por um substituto ficavam gritantes em sua diferença. Na TV um outro bom exemplo é a dupla Alexandre Machado / Fernanda Young. Em Os Normais era evidente quando o epsiódio era escrito por um ou por outro, embora os créditos sempre viessem em nome dos dois.
Na internet, entretanto conto nos dedos de uma das mãos os blogs dos quais um texto pode ser pinçado e o autor identificado após dois ou três parágrafos. A impressão que tenho é que os autores não maturaram o bastante para criar um estilo pessoal ou, no caso dos mais antigos, não se deram esse direito, em nome da objetividade, da agilidade, de San Ctrl C, Pachamama, sei lá.
Um efeito interessante gerado a partir disso é que os textos acabam gerando fidelidade de leitores para o blog, não para o blogueiro. Não é comum você ver por aí “autor-convidado fulano de tal”, e sim “fulano de tal, do blog tal”.
Ou seja: O sujeito cria um blog de sucesso, com excelente visibilidade, mas não consegue capitalizar para si o sucesso, mesmo com o blog sendo uma iniciativa totalmente pessoal. Eu entendo quando falamos de um daqueles blogs-repartição em tempo de eleição, com 68 membros ativos, 123 colaboradores eventuais e metade da população da Guiné Equatorial como “Membro VIP”. Só que não faz sentido se referir ao Veríssimo como o “Veríssimo do Analista de Bagé”.
Alguém se refere a “J.K. Rowling, Autora de Harry Potter” em grupos de fãs de Harry Potter? Alguém usa “Gene Roddenberry, criador de Star Trek” em materiais destinados a trekkers? Então por que diabos nos blogs brasileiros todo mundo precisa de um anexo ao nome para ser reconhecido?
Pelo mundo a fora temos Cory Doctorow, Xeni Jardim, Madoxx, John Dvorak e vários outros, jornalistas e blogueiros que são individualmente reconhecidos, independente dos veículos em que escrevem.
Eu credito isso à necessidade de ser aceito e à preocupação em não ofender nenhuma sensibilidade. Isso gera textos politicamente corretos, inofensivos e com pouco ou nenhum tempero. Convenhamos, o Jamie Oliver não iria muito longe fazendo programas só sobre frango grelhado.
Acho isso tudo uma grande oportunidade perdida, principalmente por quem pretende viver de escrever para veículos “de verdade”. O blog será sua última chance por muito tempo de exercer seu próprio estilo, experimentar e descobri-lo. Nenhum foca ganha uma coluna, nenhuma matéria policial pode começar como O Falcão Maltês, e seu editor vai demiti-lo se se referir à Petrobras como Petrosauro, por mais merecido que seja. O Blog é uma oportunidade e tanto, fornece um feedback dos leitores maior do que qualquer outra mídia, é excelente para polir seu estilo, exercitar suas variações e, essencialmente, aprender a escrever.
Embora haja gente vendendo livretos no estilo “Aprenda a escrever como um Mestre em 30 segundos”, a dura realidade é que ninguém escreve direito se não:
1 – Ler muito
2 – Escrever muito
A primeira parte é fácil, a segunda demanda motivação. Escrever para guardar na gaveta é um processo muito longo, embora funcione. Já escrever e publicar (possível hoje com os blogs) garante críticas instantâneas que fatalmente irão ajudar a moldar seu estilo, apontar seus erros e aprimorar seus acertos. Com isso os publicitários, estudantes de jornalismo e similares realizarão o sonho de qualquer diretor de redação: um estagiário que saiba escrever.
Obrigado, Cardoso. Deus o conserve contraditorium.
Cedo demais…
11 outubro, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
É tão estranho, os bons morrem jovens!
Assim parece ser quando me lembro de você
Que acabou indo embora cedo demais…
Eu continuo aqui com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim:
Um dia de chuva, um dia de sol.
E o que sinto eu não sei dizer…
Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade.
Até a próxima vez.
É tão estranho, os bons morrem antes!
Me lembro de você e de tanta gente
Que se foi cedo demais…
E cedo demais eu aprendi a ter tudo que sempre quis
Só não aprendi a perder
Mas perdemos você
Cedo demais…

Agora agüenta o Deputado Clodovil…
10 outubro, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Alguns trechos da entrevista de Clodovil Hernandes a Revista Isto É Gente:
Clodovil, você vai soltar a franga em Brasília?
Querido, não tenho mais franga há muito tempo, agora tenho mesmo é uma galinha velha empoleirada.
Por que escolheu se candidatar a deputado federal?
Eu escolhi sem pretensão. Podia ter escolhido para governador, porque com certeza eu ganharia até para governador do Estado de São Paulo. Mas eu não tenho experiência, não sou um homem de burocracia, e o parlamento é um lugar onde posso usar aquilo que já exercito, que é a minha fala, a minha palavra. E depois vou me adequar ao sistema. Não posso fazer parlamento do jeito que faço televisão. Não sou analfabeto, não sou um operário que viveu de fazer nada a vida inteira e que pretende um cargo sem a capacidade dele. A gente não pode ser pretensioso. Pode ser que eu aprenda, me dê bem, e consiga as coisas que eu quero conseguir para as pessoas e para mim, também, claro, porque eu sou uma delas. Pode ser até que eu queira fazer uma carreira – não vai ser tão longa, afinal de contas eu tenho 70 anos.
Quando você citou o “operário”. Se referia ao presidente Lula?
Claro. Mas não preciso massacrá-lo como Luiz Inácio da Silva. Ele é uma pessoa, merece respeito. Agora no cargo hierárquico mais importante do País, não posso respeitá-lo. Ele sai de uma quadrilha, sai de um Ali Babá e vira Herodes, começa a pagar R$ 80 para crianças nascerem e depois morrerem de fome. E depois as besteiras que ele disse, comparando-se a Jesus Cristo, a Tiradentes. Ele é um anormal, não pode ser uma pessoa normal.
Você acha o presidente Lula anormal?
Acho. Veja bem, querido. Se você colocar como uma frase solta, ele poderá dizer que estou dizendo isso moralmente.
É um anormal, digo, no raciocínio. Ele tem filhos, é um homem supostamente dentro dos padrões, casado, como é que diz umas bobagens dessas? E sobretudo não tem respeito pela vida do semelhante que o colocou lá, que votou nele.
Já votou em Lula?
Eu? Nunca, jamais, tenho horror. Pobreza não é uma vergonha, pobreza de espírito é um crime.
Você a favor do casamento homossexual? Levantará essa bandeira?
Não. Não tenho honra de ser homossexual e nem orgulho gay. Tenho honra de ser quem sou. E só permito esse assunto com Deus. Se você for analisar pelo lado dos direitos das pessoas, tudo bem. Agora essa palhaçada de ir para a igreja de terno branco, isso é o fim do mundo, querido, não existe.
Se encontrar com Marta Suplicy em Brasília, como vai reagir?
Ela estaria em Brasília fazendo o quê? Passando roupa para fora?
Ela está cotada para assumir um Ministério se Lula for reeleito.
O Lula não será reeleito nem por decreto. Isso é bobagem.
Pretende disputar a Presidência da Câmara?
Presidência? Não sei, tenho a impressão que não, não tenho intenção.
Qual será a primeira coisa que fará quando assumir o cargo em Brasília?
A primeira? Oras, redecorar todo meu gabinete!!!!
