Linguagem da Paixão

6 setembro, 2006    Categoria: Conversa fiada    Nenhum Comentário »  

Mario Vargas Llosa é, junto com Gabriel Garcia Márquez, um dos grandes narradores da América Latina. “Conversa na Catedral” e “O Amor nos Tempos do Cólera” são dois livros que eu daria a mão para escrever. Existe uma coletânea de artigos jornalísticos, escritos para o El País, intitulada A Linguagem da Paixão em que Vargas Llosa mostra uma versatilidade impressionante: fala de tudo um pouco sem cair no superficialismo. Ele faz o que todo bom jornalismo deveria: introduz a pessoa a um determinado assunto para, depois de interessada, pesquisar avidamente sobre o tópico. Sua prosa é clara, seu estilo é seguro e não há uma marca de rancor ou ressentimento em suas argumentações.

Mas há algo que incomoda. O quê? A sua idolatria pela democracia. Vargas Llosa, diferente de Garcia Marquez (com quem trocou uns socos no passado), que lambe os pés de Fidel, é um liberal. Defende a economia de livre-mercado, é contra qualquer espécie de totalitarismo, é a favor da tolerância religiosa. Tudo muito bonitinho. Mas a democracia, para ele, é uma idéia que explica ou soluciona alguns problemas da realidade política. E a democracia de hoje não resolve nada se não fôr conduzida com desconfiança.
Já dizia Mencken:

“A democracia é a arte de administrar o circo da jaula dos macacos”.

É uma ilusão, uma quimera que, ao ser realizada, só pode terminar em tirania. Platão já explica isso direitinho em A República partindo apenas de uma arguta análise psicológica; ele não analisa a sociedade e sim o indivíduo como algo concreto. Vargas Llosa sequer desconfia da democracia – para ser exato, ele defende até o Tony Blair que, junto com Clinton, fizeram com o mundo em seis anos o que Hitler não conseguiu fazer com a Europa. Tudo em nome da democracia. Tudo em nome de uma Nova Ordem Mundial. E depois culpam o Bush, que teve o azar de pegar um mundo em estado de ebulição.
Mas sabem como é, o tempo é o pai da verdade, blah blah blah, etc e tal. Tirando esse pecadillo, creio que vale muito a leitura de “A Linguagem da Paixão”. Afinal, o equivocado aqui sou eu, que já meti política e Platão onde o assunto era a Paixão.


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Nenhum Comentário para “Linguagem da Paixão”

  1. Jesus Ramos disse:

    Bom dia. Apreciei o seu belo texto. Parabéns pela sua criatividade. Que Deus abençoe sempre o seu maravilhoso talento!

  2. Alex Bezerra de Menezes disse:

    o Gabriel se rendeu ao cinema americano…

  3. Eduardo Tetera disse:

    É isso mesmo?Jesus Ramos:
    Obrigado e, abençoado és tu já pela alcunha.

    Alex:
    Muitíssimo bem lembrado
    “O Amor nos Tempos do Cólera” com Fernanda Montenegro no elenco!

  4. Dieter Auricht disse:

    Isso vai ser um bom filme. Podem apostar.

  5. Kate Weiss disse:

    Gosto de ler-te. Voltarei.

  6. Malu Barni disse:

    Eduardo: Parece que não há vinvulação, entre política e paixão; mas há. Pois como tu, tenho meus autores preferidos, livros ótimos, mas conduta de vida reprovável, mas o que me interessa é que na leitura, aprendo sempre, e não deixarei um bom livro, se o autor gostar de Fidel, Hugo Chaves…ou do Lula…isso para mim são apenas alguns detalhes…
    Beijos.
    Obrigada pela visita.Malu

  7. Eduardo Tetera disse:

    É isso mesmo?Kate:
    ‘chas gracias.

    Malu:
    Talvez haja. Só creio que a literatura seja um pouco menos cega e infinitamente menos comprometida.

  8. Jax Levin disse:

    É uma tristeza quando escritores se metem na política. Escrever é uma atvidade do isolamento, enquanto política requer proximidade com os outros, o tempo todo. Não nos esqueçamos que Hitler também foi um escritor prisioneiro, um “grande” artista que o mundo ganhou.

    Pobre de nós. A democracia está por ser inventada. Fidel acha que inventou uma democracia em novo estilo. Nós achamos que democracia são as eleições e nela depositamos toda a nossa esperança. Depois, podemos nos dedicar a ver TV enquanto os políticos nos dominam e a livre empresa emporcalha o mundo.

    Enfim excelente artigo que nos desperta tantos pensamentos. Parabens. Abç.

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