Estorinha filosófica

16 junho, 2006    Categoria: Conversa fiada    Nenhum Comentário »  

Sócrates estava lá sentado no cantinho dele quando, de repente, uma maçã atinge sua cabeça. Não, não é nada disso, essa é uma outra estória.
Como eu ia dizendo, Sócrates estava lá sentado pensando na vida quando lhe veio a idéia: não seria possível a existência de um conhecimento que tivesse o grau de certeza que nos proporciona a matemática mas que se refira a fatos concretos ? Sim, talvez. Então saiu feito um maluco a perguntar às pessoas o que seria a justiça, a coragem, a bondade. E lhe davam exemplos de pessoas justas, corajosas, bondosas. Aí ele citava homens que haviam feito algo bem diferente mas que não deixava de qualificá-los de justos, corajosos e bondosos. O que significava que deveria haver algo de comum em ações tão diferentes que nos fazia considerá-los assim. Os amigos e discípulos propunham isso e aquilo e ele ia eliminando as possibilidades que não se encaixavam.



Foi isso, em resumo, que fez o incomensurável Sócrates. E o mataram por tal ousadia. Platão também era um desocupado. Sem ter o que fazer, resolveu seguir Sócrates. E aprofundou a dialética criada pelo professor. Aristóteles foi ainda mais longe, fundando várias ciências. O fato é que todos eles queriam apenas saber mais para poderem ser mais, e ser mais para poderem conhecer mais. E nunca passou disso.

Apesar de todos os desvios, a coisa continuou assim até a Idade Média, quando ser mais tornou-se ser santo. Até então, nenhum filósofo que não se desviou desse caminho se disse sábio. Mas a partir daí, todos se proclamaram sabidos. Isso mesmo: na impossibilidade de se tornarem sábios, os humildes homens modernos se conformaram em ser sabidos. Muito ocupadinhos, não tiveram tempo de estudar as bobagens que haviam escrito os três ultrapassados velhinhos gregos. Além do mais, o conhecimento que eles estavam adquirindo já era prova suficiente de que tudo que se produziu antes nada significava. Cada um quis começar do início. Os moderninhos são todos originais.

Descartes concluiu que só existiam 2 coisas : o Espírito e a extensão, e garantiu que nada os unia. Então como o Espírito poderia conhecer a extensão ? Foi necessário pedir ajuda a Deus. Depois veio Kant. Este jurou sobre o milho que a inteligência e a moral estavam completamente separadas.

Conclusão: um mutilou o homem, o outro mutilou a mente. E jamais pediram perdão a ninguém pelo que fizeram. Ao contrário, houve quem rogasse a eles para perdoarem seus pecados. Sentiam-se mal diante de tamanha revelação. Ora, mas quem não se sente mal quando se deixa mutilar sem sentir dor? E Platão comentou com Sócrates, lá de cima: “-ei, é impressão minha ou esses caras estão separando tudo que a gente conseguiu unir?”
E Aristóteles se intrometeu:
“-vocês já ouviram falar em desconstrucionismo?”
E um sorriso maroto brotou dos lábios de cada um.


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Nenhum Comentário para “Estorinha filosófica”

  1. Palpiteira disse:

    Gostei muito dessa historinha. Devia escrever mais delas.
    Um abraço.

  2. Eme disse:

    Excelente!!
    Parabéns, Eduardo!!!
    Beijos
    Eme

  3. João Adolfo Guerreiro disse:

    A vaidade é o diabinho da ciência.

  4. Valéria Guerra disse:

    É amigo..que beleza…obrigada por seu comentário..luz e paz..amigo..lindo poeta..fique com Deus..

  5. André Boniatti disse:

    poxa, rapaz, vim dar uma passeada por tuas palavras e encontro um cronista filosófico de primeira linha, que não só filosofa, mas sabe criar situações, sabe lidar com palavras, é irônico e perverso e diz tudo, muito bem tudo o que diz

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