A memória e o tempo
20 maio, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Desde que comecei a rascunhar o último post estive foleando e relendo umas coisas de Marcel Proust. Deu vontade, nem eu sei porque. O interessante na leitura de alguns dos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” é, depois de ficar horas a fio pensando sobre a genialidade do romance em sua estrutura, estilo e narrativa, ler o que outros sujeitos escreveram sobre o livro. No caso, a cereja do bolo é o ensaio que Samuel Beckett escreveu em início de carreira sobre Proust. É um daqueles textos em que se observa como um grande autor iniciante utiliza-se de um grande autor já consagrado (quando Beckett escreveu o ensaio, em 1931, Proust já morrera havia nove anos) para trampolim de seu projeto poético.
E que projeto poético!
Beckett é mais pessimista do que qualquer Nietszche de cozinha; seu único problema é que ele se aproveita de um neurastênico melancólico para reafirmar que toda condição humana está fadada ao fracasso. Proust nunca escreveria frases do tipo: “O hábito é o lastro que acorrenta o cão a seu lastro” ou “Somos incapazes de compreender ou incapazes de sermos compreendidos”, frases que martelam em nossas mentes por um bom tempo (e Tempo é uma palavra-chave para entender a obra destes dois senhores).
Na realidade, o escritor francês falaria mais ou menos a mesma coisa, só que desta maneira: “Gilberte era como um desses países em que não se podia fazer alianças diplomáticas, devido à inconstância de seus governos” ou “As pessoas que nos atormentam são como degraus de acesso para as divindades superiores”. Aqui, o tempo está embutido numa seqüência de símiles e analogias imperceptíveis, enquanto que em Beckett a solidão do artista, em toda sua radicalidade, se expressa em um estilo duro, afiado, sem preocupações com o bom gosto.
Como se não bastasse, o ensaio de Beckett sobre Proust é o que todo grande ensaio deveria ser: uma reflexão sobre uma obra em que o importante é a preparação de uma obra futura e não a mera exposição de técnicas narrativas e idéias conceituais que não chegam a lugar nenhum.
Querem provar um futuro grande escritor? Leiam seus ensaios mais descompromissados: se eles insinuam algo a mais é porque, com alguma sorte, este sujeito continuará a realizar uma obra que poucos terão a coragem de destruir. Foi assim com Proust (em seus ensaios contra Sainte-Beuve) e foi assim com Beckett. Enfim, nada como o velho lema ora et labora.
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21 maio, 2006 - 17:07
nem foi tempo perdido….
somos tão jooooooooooooooooooooooooveeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeens…..
28 maio, 2006 - 23:11
Em ano de eleição eu sugiro uma chapa: Gisele Bündchen presidente e João Guerreiro pra vice. Poderia perder a eleição mas a campanha seria qualquer coisa…
O Terapeuta de Santo Amaro seria o Ministro da Saúde e você, Eduardo, Ministro da Cultura.
E o Leonardo Di Caprio? Que se dane o Leonardo Di Caprio!
28 junho, 2006 - 17:26
É verdade. Falar sobre isso no tempo do minimalismo midiático é ir além de consversas banais. Valeu Edu.