Islã
16 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
O filósofo muçulmano Tariq Ramadan (Ramadan?) disse que a ponte entre o ocidente e o Islã é possível e desejável. “Se o Islã e o Ocidente partirem para o choque de civilizações, os dois lados sairão derrotados”.
E o que aconteceria se o Islã partisse?
Ao Poeta
14 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
POETA, às horas mortas que o cálice azulado
— Da etérea flor — a noite — debruça-se p’ra o
mar,
E a pálida sonâmbula, cumprindo o eterno fado,
As gazas transparentes espalha do luar,
Eu vi-te ao clarão, trêmulo dos astros lá n’altura
Pela janela aberta às virações azuis,
— A amante sobre o peito sedento de ternura,
A mente no infinito sedenta só de luz.
Perto do candelabro teu Lamartine terno
À tua espera abria as folhas de cetim;
Mas tu lias no livro, onde escrevera o Eterno
Letras — que são estrelas — no céu — folha sem
fim
Cismavas… de astro em astro teu pensamento errava
Rasgando o reposteiro da seda azul dos céus:
E teu ouvido atento… em êxtase escutava
Nas virações da noite o respirar de Deus.
O oceano de tua alma, do crânio transbordando,
Enchia a natureza de sentimento e amor,
As noites eram ninhos de amantes s’ocultando,
O monte — um braço erguido em busca do Senhor.
Nas selvas, nas neblinas o olhar visionário
Via s’erguer fantasmas aqui… ali… além,
P’ra ti era o cipreste — o dedo mortuário
Com que o sepulcro aponta no espaço ao longe… alguém
No cedro pensativo, que a sós no descampado
Geme e goteja orvalhos ao sopro do tufão,
Vias um triste velho — sozinho, desprezado
Molhando a barba em prantos co’a fronte para o chão.
Aqui — ondina louca — vogavas sobre os mares —
Ali — silfo ligeiro — na murta ias dormir,
Anjo — de algum cometa, que vaga pelos ares,
Na cabeleira fúlgida brincavas a sorrir.
Sublime panteísta, que amor em ti resumes,
Sentes a alma de Deus na criação brilhar!
Perfume — tu subias, de um anjo entre os perfumes,
Ave do céu — nas nuvens teu ninho ias buscar.
Canta, poeta, os hinos, com que o silêncio acordas,
A natureza — é uma harpa presa nas mãos de Deus.
O mundo passa… e mira o brilho dessas cordas…
E o hino?… O hino apenas chega aos ouvidos teus.
Todo o universo é um templo — o céu a cúpula imensa,
Os astros — lampas de ouro no espaço a cintilar,
A ventania — é o órgão que enche a nave extensa,
Tu és o sacerdote da terra — imenso altar.
14 de março – Dia Nacional da Poesia
Não por acaso, aniversário de Antônio de Castro Alves.
Victor Hugo
14 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Meditar é trabalhar. Pensar é obrar. O olhar fito no céu é uma obra.
O celular salvou o inglês
12 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Tenho visto, sobretudo nos últimos tempos, todo tipo de demonstração prodigiosa. Algumas vezes é a bravura de um homem a postos pra um salvamento aquático ou num incêndio florestal. Em outras, é o dilema familiar na busca frenética de cura da doença de um de seus familiares. Enfim, é o século do desenvolvimento e da intelectualidade.
Daí a ser salvo por um telefone celular, já vai longe.
Um chef britânico foi mordido por uma aranha brasileira e só foi salvo porque tirou uma foto do animal com a câmara de seu celular. Ta aí o nome da figura: Matthew Stevens. Ele mora em Bridgwater, a pouco mais de 200 km a oeste de Londres e estava limpando o freezer de seu pub, quando foi picado duas vezes por uma aranha.
Stevens tirou uma foto da aranha com a câmara de seu celular para “mostrar aos amigos”. Depois da picada, sua mão começou a inchar e ele passou a sentir fortes dores e tontura, desmaiou e foi levado ao hospital. Os médicos perceberam a gravidade da situação, mas era preciso identificar o tipo de aranha para saber qual o tratamento. O chef se lembrou da foto no celular, que foi enviada a especialistas do zoológico de Bristol.
Os especialistas identificaram a aranha como Phoneutria fera, típica do Brasil, popularmente conhecida como aranha da banana ou armadeira.A suspeita é de que a aranha tenha chegado ao pub de Stevens em uma caixa de bananas. Ela estava escondida embaixo de um pano e quando o Mattew foi pegá-lo ela o picou. Segundo ele era quase do tamanho da palma da sua mão. Ele ainda foi picado uma segunda vez.
A Phoneutria fera está no Livro Guinness de Recordes como a aranha mais venenosa do mundo, segundo o Times. Pelo menos 14 pessoas morreram de sua picada desde 1926, mas nenhum caso foi registrado desde 1996, quando cientistas brasileiros desenvolveram um antídoto para o veneno. O sujeito ser picado por uma aranha que freqüenta bananeiras já é difícil. Ter um encontro com essa mesma aranha além-mar em pleno pub Londrino é bastante improvável. Ser picado duas vezes e ainda sobreviver?!
Quem tinha que estar no Guiness era o inglês, não a aranha.
HP
8 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Pressentimos que nenhum de nós sabe fazer muito bem isto da vida, o resto é balela. Nem no mal nem nas feridas sabemos o que estamos fazendo ao certo enquanto agimos e pensamos – e o resto é ilusão de conseguir ver a si próprio. Nos executamos assim sem saber muito bem como, repletos de hábitos ocasionais e contínuas e cegas apalpadelas, não passamos de cinzas de identidade, é o que pressentimos na intimidade do outro. No seu olhar que nos vê, do fundo de si próprio que nunca seremos, fechados em nós mesmos de certo modo – no entanto olhando-se daqui e dali. Sem o amor, a realidade não passa de um sonho – não há outro, a floresta desaparece na escuridão e nem um grito que não seja nosso.
O amor é anterior a gostar ou não gostar das coisas e pessoas, é primeiro abrir-se a elas – é a luz onde as coisas se revelam ou nada. Nos recalcamos desde cedo, na ante-primeira infância e continuamente até à morte. Nos dissipamos em momentos que se soltam então dispersos – e nos dedicamo às nossas afeições e afinidades que se reúnem no vazio, e assim sucumbem perante a morte ou qualquer pequeno desespero. E mais frágeis até, por vezes basta uma dor de dentes para já não sabermos quem ou o que amamos. Ou para sabê-lo desesperadamente: que estamos inteiramente fechados e distantes e intocáveis.
O exterior olha para nós com ferocidade.
É frágil esta beleza – tal qual a presença do outro e da vida que se esvaem como um fogo que nos foge. Agredir o aparente ser que nos mostra duvidoso é participar da fuga, é ser na propriedade deste mundo que se esvai na nossa pequena vida.
É só por isso, por nada mais. Não é preciso muita conversa, apenas a adequada impressão de vida, sem papo nem revolta, como você se sente mesmo aí na vida que decorre e não aprende na infância ou na velhice ou entre ambas?… Nesse sentido, só há ética no amor, o resto é conversa de interesse ou covardia. Momentos segundos e que ao tomarem-se por primeiros e fundamentais naufragam no absurdo.
Chocar-se com o absurdo do mundo, ainda é pertencer-lhe.
A ironia é um rigor amoroso, assim como a bondade também é. Basta o abismo que o outro é perante o nosso, para hesitar matá-lo por nossa confusa e revoltada causa, seja qual for o nosso suposto alento de viver e de morrer. O assassino, é o mais solitário que reside em nós. E o mais solidário, ao contrário do que pensa a ética contratualista, porque no recalcado estado em que nascemos e vivemos, debater-se no absurdo tem um quê de sentido, negativo, mas ainda assim sentido.
Antes revoltado que justificador do mundo.
A diferença é que o primeiro tem os crimes à mostra e apropriados – respondendo direta e desesperadamente por eles. O segundo legitima-os e legitima-se perante o mundo, e os seus crimes prosseguem indireta e extensivamente das almas aos corpos e às moléculas da atmosfera. Só o amor redime ambos, só o alento perante o abismo e sua decorrente queda – no vazio ou em Deus. Pode-se dizer até: no vazio e em Deus.
Basta o abismo que o outro é para sequer querer magoá-lo, aflorá-lo com a mínima dor – o que fazemos mal respiramos. Mas também lhe damos luz nessa dor, que sentimos como alegria que irrompe de um para o outro e tudo vence.
S. Francisco fala com lobos e com o sol e a lua, S. Antônio com os peixes e com as cidades, Teresa de Calcutá com os intocáveis e com os reis do mundo e Jacó com as ovelhas.Trata-se duma pura e indizível esponsalidade que se deixa fecundar pelo maculado mundo dando à luz imaculados frutos.
Esta esponsalidade, naquilo que se pode dizer humanamente e entre outros aspectos, exige que se deixe o outro revelar-se enquanto ser próprio, enquanto execução simultânea da incognoscível vontade criadora de Deus e da liberdade e verdade do outro, das pessoas às coisas e animais e discursos e etc, nos infindos significados do verbo divino. Por isso e não só, a relação entre a ética contratualista e o amor não é pacífica. Deve-se levar a tribunal ou prender o velho hebreu antes de ele estar prestes a assassinar o seu próprio filho?…
E foi-nos revelado que lá no fundo e na superfície há uma alegria, e mais pequena e intensamente a pressentimos. É terrível isto do amor – não anula o vazio das coisas e a impossibilidade de aceder ao outro, e chama por ambos inteiros e vivos.
em texto de Vítor Mácula
