Ao Poeta

14 março, 2006    Categoria: Conversa fiada    Nenhum Comentário »  

POETA, às horas mortas que o cálice azulado

— Da etérea flor — a noite — debruça-se p’ra o
mar,

E a pálida sonâmbula, cumprindo o eterno fado,

As gazas transparentes espalha do luar,

Eu vi-te ao clarão, trêmulo dos astros lá n’altura

Pela janela aberta às virações azuis,

— A amante sobre o peito sedento de ternura,

A mente no infinito sedenta só de luz.

Perto do candelabro teu Lamartine terno

À tua espera abria as folhas de cetim;

Mas tu lias no livro, onde escrevera o Eterno

Letras — que são estrelas — no céu — folha sem
fim

Cismavas… de astro em astro teu pensamento errava

Rasgando o reposteiro da seda azul dos céus:

E teu ouvido atento… em êxtase escutava

Nas virações da noite o respirar de Deus.

O oceano de tua alma, do crânio transbordando,

Enchia a natureza de sentimento e amor,

As noites eram ninhos de amantes s’ocultando,

O monte — um braço erguido em busca do Senhor.

Nas selvas, nas neblinas o olhar visionário

Via s’erguer fantasmas aqui… ali… além,

P’ra ti era o cipreste — o dedo mortuário

Com que o sepulcro aponta no espaço ao longe… alguém

No cedro pensativo, que a sós no descampado

Geme e goteja orvalhos ao sopro do tufão,

Vias um triste velho — sozinho, desprezado

Molhando a barba em prantos co’a fronte para o chão.

Aqui — ondina louca — vogavas sobre os mares —

Ali — silfo ligeiro — na murta ias dormir,

Anjo — de algum cometa, que vaga pelos ares,

Na cabeleira fúlgida brincavas a sorrir.

Sublime panteísta, que amor em ti resumes,

Sentes a alma de Deus na criação brilhar!

Perfume — tu subias, de um anjo entre os perfumes,

Ave do céu — nas nuvens teu ninho ias buscar.

Canta, poeta, os hinos, com que o silêncio acordas,

A natureza — é uma harpa presa nas mãos de Deus.

O mundo passa… e mira o brilho dessas cordas…

E o hino?… O hino apenas chega aos ouvidos teus.

Todo o universo é um templo — o céu a cúpula imensa,

Os astros — lampas de ouro no espaço a cintilar,

A ventania — é o órgão que enche a nave extensa,

Tu és o sacerdote da terra — imenso altar.

14 de março – Dia Nacional da Poesia
Não por acaso, aniversário de Antônio de Castro Alves.


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Nenhum Comentário para “Ao Poeta”

  1. Vítor Mácula disse:

    Caro Eduardo Martins.

    Ansear… é já algo dizer.

    Abraço.

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