Fora de Ordem
31 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Os músicos do Brasil andam fulos da vida com a sua Ordem.
O que acontece é que as eleições na OMB (Ordem dos Músicos do Brasil) são anuais, e feitas por terços: a cada ano, um terço da diretoria se elege (cada terço tem um mandato de 3 anos). O presidente nacional da entidade, Wilson Sândoli, está no cargo desde 1964 e o presidente regional do Rio de Janeiro, João Batista Vianna, desde 1982. Em julho de 2005 a presidência da OMB antecipou as eleições que seriam em novembro. Uma das principais queixas contra a OMB é a exigência do registro de músico sem contrapartidas como defesa de direitos dos músicos e a forma como muitas vezes este registro é conseguido sem critério de habilidade específica.
Os músicos do movimento Fora de Ordem fizeram um abaixo-assinado com mais de 1.100 assinaturas de arranjadores, cantores, compositores, copistas, instrumentistas, letristas, maestros, orquestradores, produtores musicais e professores de música. Entre eles, Chico Buarque, Caetano Veloso, Egberto Gismonti, Ivan Lins, Gabriel O Pensador, Fernanda Abreu, Joyce, Lobão, Marco Pereira, Nelson Motta, Zeca Balero, Luis Carlos da Vila, Simoninha e Wagner Tiso, protestando contra a ameaça de cassação do registro profissional do colega Eduardo Camenietzki e solicitando às autoridades competentes que promovam, através do Ministério Público Federal, uma intervenção na OMB.
No último dia 27 houve um show histórico nos Arcos da Lapa, espetáculo que foi gravado em CD e DVD e teve arrecadação de recursos para o movimento, com a venda dos produtos.
O show Fora de Ordem foi gratuito, ininterrupto das 16:00 as 22:00 e reuniu um elenco de músicos de primeira, com patrocínio da Prefeitura, para mostrar à sociedade sua causa contra a OMB. Quem esteve nos Arcos da Lapa conferiu Roberto Frejat e o Barão Vermelho, Sandra de Sá, Cláudio Zoli, Lenine, Zélia Duncan, Wanda Sá, Boca Livre, João Carlos Assis Brasil, Tunai, Macalé, Batacotô, Wagner Tiso, Vitor Biglione & Marcio Malard, Cama de Gato, Robertinho Silva, Rodrigo Quik, Nivaldo Ornelas, Tibério Gaspar, Darcy da Mangueira, Noca da Portela, Ivo Meirelles & Funk’n Lata, Célia Vaz, Cristina Conrado, Key Lyra, Paulinho Tapajós, Artur Verocai, Flávio Oliveira, Língua Solta, Eduardo Bentes, Lúcia Tunrbul e muitos outros que se engajaram na movimento Fora de Ordem.
A presença marcante de tantos artistas tem como motivação o movimento da classe dos músicos (que se organizou no chamado Fórum Permanente de Música) contra a situação da OMB que nada faz pela categoria, mantém a mesma presidência no poder há 40 anos e, recentemente, cassou o registro do violonista Eduardo Camenietzki pelo seu protesto contra a antecipação das eleições da entidade!
Veja outras reivindicações do movimento Fora de Ordem:
1 – Sustar o processo que o Conselho Regional da OMB – RJ está movendo contra Eduardo Camenietzki com o intuito de cassar seu registro profissional
2- Intervir, através do Ministério Público Federal ou demais órgãos competentes, com o objetivo de suspender o mandato de todos os dirigentes que estão comprometidos com as práticas autoritárias e irregulares da entidade, por mais de quarenta anos, desde a ditadura militar, e promover simultaneamente novas eleições, criando novos quadros
3 – Reformar o processo eleitoral de terços, instituindo pleitos diretos de dois em dois anos
4 – Levantar todo o patrimônio material e imaterial da entidade, adquirido com a contribuição dos músicos brasileiros durante décadas, garantindo sua preservação
5 – Restituir os registros de todos os músicos cassados por não concordarem com as regras impostas pela OMB, em todo o território nacional
6 – Regulamentar o direito dos chamados músicos práticos, os amadores, de votarem nas eleições da OMB e a inclusão dos DJs no registro da Ordem, já que ela não os reconhece como músicos.
A propósito: O procurador do Ministério Público, Carlos Alberto Bermond, arquivou a solicitação de intervenção na Ordem (feita por Eduardo Camenietzki) por julgar o pleito realizado de forma regular.Como diria Caetano, alguma coisa está fora da ordem…
Catedral de Sevilha – Um vale invertido
27 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »

Escrevendo o post sobre os livros esquecidos na Biblioteca Mário de Andrade me vieram lembranças da grandiosíssima Catedral de Sevilha e sua não menos portentosa biblioteca. Aquele monumento gótico de dimensões estupendas, desde sua origem, atrai gente de todos os ventos em busca de rotas perdidas e escrituras sagradas. Algumas vezes, os textos meditados ali oferecem sonhos, ambições, amor, confidências, luz. Diria que é um curral onde bezerros perdidos trotam entre as pastagens literárias daquela arquitetura oca.
Ali navegam por entre teias de aranha medievais os humanautas buscando uma voz, uma esperança para o pecado, segredos, compreensão. Alguns funcionários da biblioteca trabalham; outros sonham, ainda há os que estão prisioneiros. Por vezes não resistem à tentação de abandonar os livros e, clandestinamente, ler os sonhos dos que por ali passam admirando aquele vale invertido magistral.
Como um coiote na colina, os visitantes observam tudo aquilo com olhos fixos, cuidadosos. Muitos ali encontram as respostas perdidas de seu coração ou o porquê das brechas de uma sociedade incomprensível. Pode-se muitas vezes, observar pessoas desenhando o passado ou traçando roteiros furtivos entre as possibilidades dos títulos de um livro mas nunca sem dar-se conta do magnetismo do lugar que move seus próprios sonhos, compelindo-os a navegar num espaço inacessível: Os céus de Deus.
Percebe-se que há ali naqueles pátios várias estrelas escondidas entre os livros, empregados, leitores, vigilantes, diretores. Muitos sonhadores. Sei que ali existem fogos secretos e informações contidas.
Conheci naqueles pátios um poeta, que havia viajado até Sevilha a fim de pesquisar algo de construções góticas e acabou conhecendo uma bibliotecária andaluza que por ali vivia. Dizia que “os olhos são a comporta da alma” e que esses o haviam levado ao encontro da bela…
Não parece ser a coisa típica a se buscar em uma biblioteca, onde cada leitor é um número, uma credencial, um usuário de direitos, um roedor dos serviços. Mas a bibliotecária também respirava aquele ar antigo e misterioso e da sua torre de mármore roubou o pensamento, a atenção e o coração do poeta. 
É assim, a catedral de Sevilha. Tão imponente que às vezes proibe qualquer leitura, sequestra os sonhos e se apropria das intenções alheias.Entra o visitante caminhando entre estátuas e elevações, cercado de águas em alguns espaços e, por instantes no interior daquele vale invertido, o silêncio torna-se obrigatório.
A Dança
27 março, 2006 Categoria: Política é o fim Nenhum Comentário »
Um dia nós crescemos.
Nossas vidas se modificam e acabamos aprendendo que somos criminosamente obrigados a nos calar, pois aquele berro por nós dado quando ainda éramos crianças, hoje, poderia nos causar a perda de um emprego, a perda de um amor, ou pior que isso, a perda de nossa liberdade e por assim ser, o povo acaba se acovardando e mesmo se sentindo sufocado, fecha-se no seu pequeno reduto interior e fica remoendo a vontade de sair por aí gritando e berrando contra tudo o que há de errado.
Talvez berremos mais do que devíamos e por isso, ainda acabamos sendo punidos justamente por aquelas pessoas que deveriam ser banidas da vida pública e inclusive das fronteiras de nossa pátria, para nunca mais retornar; contudo nem a certeza, quem sabe, de uma punição futura, nos deve fazer calar diante do que vemos acontecendo em nosso amado e estuprado país.
Digo isso, porque sinto-me enojado por ver a impunidade tomando conta de tudo e de todos, sem que ninguém faça nada, pois a oposição ao desgoverno PeTônico, se é que existe, acabou se transformando em algo tão covarde como o temeroso empregado na frente do seu cruel patrão.
Enojei-me ainda mais ao ver que tão logo ficou claro aos primeiros minutos que a Câmara do Deputados salvaria o mandato do deputado João Magno(que é do partido PeTônico do estado das Minas Gerais), parlamentoso que indignamente é um dos representantes deste sofrido povo, e que foi formalmente acusado de ter recebido dinheiro ilícito de Marcos Valério, a deputosa também PeTônica, Ângela Moraes Guadagnin, indigna representante do estado de São Paulo protagonizou uma inesquecível cena de total e completo desrespeito, não só com os seus idióticos eleitores palhaços, bem como para com toda a nação brasileira.
Simples e descaradamente, ela, deputosa Ângela Guadagnin, deixou o lugar onde estava sentada nas primeiras fileiras à esquerda do plenário e saiu dançando para manifestar sua alegria com a absolvição do colega de partido.
Mas quem é esta indecorosa representante do povo ???
Ângela Guadagnin, não é uma pessoa leiga em leitura, ao contrário disso, ela é médica pediatra, foi prefeita da cidade de São José dos Campos entre 1993 e 1996 e está exercendo pela segunda vez o mandato de deputosa federal.
Esta senhora desde que pipocou o escândalo do mensalão (aquilo que segundo o cego, surdo e mudo presidente Dom Luiz Ignácio XIII nem existe), tem se notabilizado por tentar desavergonhosamente livrar a cara dos seus colegas do Partido dos Trambiq…, quer dizer, Trabalhadores, denunciados ao Conselho de Ética da Câmara e sujeitos à cassação por quebra de decoro parlamentar, pois sempre, convenientemente pede vistas dos processos para retardar sua tramitação e obviamente vota pela absolvição de todos.
A dança desta deputosa em pleno plenário da Casa do Povo, dá a noção exata da absoluta falta de vergonha e da falta de respeito para com todos nós, que contaminou a Câmara dos Deputados.
Apenas para recordar, dos 19 marginais envolvidos no esquema “inexistente” do mensalão, apontados pelas CPIs dos Correios e da Compra de Votos, 11 já escaparam da condenação, sendo 4 porque renunciaram e poderão ser candidatos este ano, 7 porque foram absolvidos, graças a providencial “ajuda” de uma “senhora” que surgiu do anonimato e que agora se transformou na pior espécie em se tratando de como somos tratados, todos nós idióticos eleitores palhaços.
Nessa altura me recordo de um rapaz que se foi há 10 anos e que faria hoje 46 anos: Renato Manfredini Júnior, que numa de suas letras sapientíssimas disparou:
…você nunca dançou com ódio de verdade.
Você é tão esperto.
Você está tão certo
Que você nunca vai errar.
Mas a vida deixa marcas
Tenha cuidado se um dia você dançar…
É, Renato. Tá russo aqui.
De como esquecer a cultura
25 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Reapareceu na Biblioteca Mário de Andrade um expediente de três folhas que deveria ser exposto nas principais casas de livros do país. Foi achado em 2001, mas retornara ao arquivo carregando de volta seu mistério. Uma linda história, com final triste.
No dia 6 de abril de 1964, 48 horas depois da chegada do presidente deposto João Goulart a Montevidéu, uma pessoa entrou na Biblioteca Mário de Andrade, no Centro de São Paulo. Carregava duas maletas e as deixou na portaria. Ficaram lá durante 20 dias, até que um zelador as abriu. Continham 32 livros.
Naqueles dias as forças de ditadura apreendiam livros (inclusive o romance “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal) e filmes (“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha), fechavam rádios e jornais. Muita gente jogou parte de sua biblioteca no lixo, mas o personagem das maletas teve uma idéia que encantaria o escritor Jorge Luís Borges.
Não tomou medo de seus livros. Sentindo que não podia mais guardá-los, decidiu deixá-los onde alguém cuidasse deles. Abandonou-os na portaria da maior biblioteca pública da cidade e voltou para casa.
Assim, sobreviveriam às dificuldades do momento. Como Chico Buarque de Holanda diria mais tarde: “Vai passar.”
Nada se sabe da figura. Lia em italiano, espanhol e inglês. Oito obras de Marx e Lênin, bem como dois exemplares da revista “Problemas da Paz e do Socialismo”, informam que era comunista. Um livro de Andrei Zhdanov, o comissário cultural de Stalin, sugere que tivesse mais de 50 anos.
Gostava de cinema, pois tinha dois boletins dos “Amigos da Cinemateca”, de Dante Ancona Lopes. Um volume de “O Direito Soviético”, de Benjamin de Oliveira Filho, indica que talvez fosse advogado. Parece ter conservado seus romances russos, pois abandonou apenas os volumes intitulados “Literatura Soviética”.
O zelador encarregado da portaria (Salvador Finotti) comunicou o achado das maletas e recebeu ordens do chefe da Divisão Cultural 2 (Francisco José de Azevedo) para listar as obras, juntando uma cópia à biblioteca abandonada.
Final triste: O atual diretor da Mário de Andrade, o advogado Luís Francisco da Silva Carvalho Filho, pediu que se buscasse no catálogo da Casa os volumes sobreviventes. Não os há. O comunista de 1964 certamente já se foi. Felizmente, sem saber que não adiantou nada.
Restou só a história de sua paixão.
Mundo ao Leo
23 março, 2006 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Já tá no ar uma nova opção para os cinéfilos de plantão. É o blog Mundo ao Leo do nosso amigo Leonardo Soares.
Pra quem curte uma boa película e quer ficar antenado com os novos lançamentos do mundo da telona vale dar sempre uma passadinha por lá.
O Leo pretende divulgar as sinopses dos mais variados gêneros e vai dar boas dicas pra quem quer se divertir no cinema sem medo de errar.
Mas não fica só no papo de cinema. O cara vai falar de tudo um pouco: livros, cinema, vida, música, entretenimento e cultura geral.
Bagagem pra isso, o Leo tem.
Tá dado o recado. Agora vai lá.
