Maio Negro ou Outubro Vermelho?

16 novembro, 2005    Categoria: Conversa fiada    Nenhum Comentário »  

A França é uma das poucas nações ocidentais que não pode se dar ao luxo, sobretudo na esfera pública, de ser impune com as palavras. Por algum tempo a França foi a pátria dos artistas. Balzac advertiu que naquele país uma palavra mal colocada poderia desencadear uma revolução. Os sem-cuecas de ontem são os radicais de hoje.
Os sociólogos dizem sandices e provavelmente, com todas as notícias e imagens vindas dos acontecimentos nos arredores de Paris, devo passar a dizer as minhas também, em solidariedade a esses. Le Goff disse que “esta rebelião não é tão bela como a de 68″, como se os fenômenos sociais fossem pinturas; Wieviorka entra em cena com um lugar comum como “o sistema fracassou”; Michel FoucaultAlguns ressaltam surpresos que eles “não têm voz”; Baudrillard, com sua verdade oblíqua e sua ranhetice com a língua inglesa, deve em pouco tempo dar o ar da graça com outros de seus disparates criativos. Talvez o convidem para outro show de filosofia em Las Vegas. E os demais antropólogos e cultorólogos estão calados (ainda não li nada desses nos grandes jornais), mas já já vão nos inundar com aqueles livros e crônicas fajutos.
Esse “maio negro” francês — uma espécie de maio de 68 continuado– dá a impressão de estarem os franceses num bêco sem saída, sem nem poder chamar o momento de “outubro vermelho”, porque esse também já aconteceu. Pecariam pela falta de originalidade e nisso eles não podem deslisar. E pensar que eles mesmos condenavam o separatismo (outra palavra mal colocada) do Haiti.

O assunto tem muito que ver com a discussão entre a tal da multi-culturalidade e a (santo Deus) inter-culturalidade, tal como hoje se estabelece entre círculos muito especializados de estudiosos da cultura mundial. Tudo a ver com identidade, cultura e migração.
Penso que a migração é um lado também turvo da globalização. É justo nesse ponto que me caem textos de alguns antropólogos yankees (veneno inevitável) que vão sempre degladear suas idéias com os imigrantes das metrópoles de países pós-coloniais, uma vez que influem na estabilidade política dos sistemas que os recebem. Mas não seria um contra-senso todos esses estudos se ocuparem de apagar o fogo parisiense? Talvez. Algumas vezes testemunhei isso às avessas com os franceses no Marrocos e agora me deparo com toda essa comoção numa França com a qual todo latino sonha, admira, ama ou odeia sem maiores pretensões.
Com todos estes elementos, parece haver semelhança também com aqueles niilistas russos de finais do século XIX ou os terroristas islâmicos de hoje carregados de dinamite que em qualquer momento podem explodir e mandar pelos ares a quem se encontre próximo. Me vêm logo à memoria três paradigmas que podemos usar para perceber a situação:Raymond Williams

1. O de Jean Paul Sartre e Franz Fanon.
2. O de Raymond Williams e Stuart Hall e
3. O de Michel Foucault e Edward Said.

Todos são parecidos porque combinam um intelectual metropolitano, senhor de suas disciplinas e solidário com as concepções dos outros provenientes das ex-colônias e, ao mesmo tempo, todos diferentes. O que há de igual são os protestos dos colonizados que representam, em sua essência, uma gente querendo se emancipar enfiada em categorias universais impostas pela cultura ocidental; exigem os mesmos direitos que lhes demonstraram os metropolitanos (reconhecidamente hipócritas e elitistas) numa condição de impotentes convencidos da assimetria e da violência dos marginalizados. Lembra de Sartre fascinado, comovido pelo injustiçado, assinando o belo prefácio de “Os condenados da Terra” de Fanon? Pois é.
Stuart HallO segundo par, um pouco mais acadêmico, porém com o mesmo teor de emancipação do primeiro, foi muito útil à cultura dos grupos marginalizados e em especial àqueles dos países que foram colônias de outras metrópoles. Até hoje o jamaicano Stuart Hall é um ícone vivo dessa corrente.

E o último, se decanta pelo lado do silêncio, a resistência sem rosto, a clandestinidade moderna (note que os garotos franceses usaram celulares para coordenarem todo o movimento) e não há grupos que assumam tudo aquilo. Não desejar serem representados por qualquer movimento passou a ser uma virtude; não ter voz, rosto, arma e não propor discursos nem utopias. Esse é o mérito. Algo imaginado por Michel Foucault (com suas resistências em forma de redes frente ao poder) e Edward Said, como o silêncio dos humilhados como instrumento de luta.

Esta leitura apresenta tais violências como quebras profundas dos valores modernos, ocidentais e técnicos. Não há utopias a que se perseguir (nem esses autores propõem isso) e somos levados a crer que é uma estética de violência gerada pelo mesmo sistema que não reconhece suas misérias.

Paris 68Este momento é especial porque hoje em dia os jovens geralmente não são religiosos, são pouco solidários, indivíduos que procuram esgotar as energias em viagens e diversão contínua. Não sabem o que querem nem o que buscam. Ou sabem muito bem, mas preferem não assumir diante dos adultos; talvez até porque queiram nos surpreender numa manhã, como a de 68 em Paris, com uma idéia para assombrar o mundo e inaugurar uma nova época rica em sentido e espiritualidade…
Teremos sobrancelhas suficientes a serem eriçadas? Ora, não há espiritualidade nas chamas que arderam em Paris e nas outras cidades francesas. Mas há calor pra elas. Tomara que desta vez não se volte a confundir o ardor das fogueiras com os resplendores da aurora.


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Nenhum Comentário para “Maio Negro ou Outubro Vermelho?”

  1. Tata disse:

    Du… estou quase sem palavras. Não totalmente porque há toda necessidade de comentar esse texto incrivel. Em especial o penúltimo parágrafo que em qualquer contexto, parisiense ou não, retrata com fidelidade e sensibilidade única a realidade de uma geração.
    Esse texto está inspirado… que venham outros, ainda melhores… Te adoro, (sua) Tata.

  2. morfeu disse:

    Tenho tentado perceber este fenómeno e tenho para leitura o último número do courrier international em edição portuguesa…fundamentalmente pareceç-me que existe todo um conjunto de gente desocupada, de ascendência africana,culturalmente islâmico…curioso é observar a violencia gratuita, a queima de um objecto simbólico – o automóvel- …embora usando celular.Parece-me que existe não uma organização espontânea mas algo por detrás…vou procurar informar-me. O teu texto apresenta-se erudito e com alguma dificuldade…a aproximação a 68 parece-me meramente circunstancial, pela ausencia de valores e objectivos definidos, utopia ou algo semelhante…há grupo ou não há?Meras individualidades espontaneamente em conjunto violento? Perceber este fenómeno fundamental para mts países da Europa, já que o fluxo de imigração se faz sentir intensamente…
    Um abraço do Morfeu

  3. Márcio disse:

    Alguns pontos dessa leitura me deram o que pensar. Ando refletindo sobre essas manifestações já tem bem um tempo e ainda não havia dado por mim que uma aparente mera agitação pode ter por detrás valores tão fundados, embora não válidos, na minha opinião.
    valeu, Edu. abraço

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