Assaltaram a gramática
4 junho, 2005 Categoria: Conversa fiada Nenhum Comentário »
Foi no Jardim Botânico e, por pouco, não seqüestraram a fonética de Lulu Santos. Aliás, não mesmo. O poeta falou e disse tudo que pensa a respeito da segurança nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro. Aliás (de novo), segurança não: falta de segurança.
E o cidadão Luís Maurício demonstrou ser — como todos deveríamos — lúcido, equilibrado e mesmo sob a recente tensão, com a adrenalina batendo no teto fez ver a todo o restante da população que não podemos ter assassinada a nossa lógica.
Aquilo me chamou à atenção. Mesmo estando no olho do furacão, na bagunça do dia-a-dia (e que dia), o homem da Scarlet meteu poesia onde devia e não devia. Distribui xutos líricos e pontapés melódicos pra todo lado. Com direito a intervenção do secretário de segurança que telefonou à delegacia e tomou ele mesmo a frente do assunto e outros bichos mais.
Soltaram a notícia quando Lulu ainda nem havia chegado ao distrito policial. Ouvi no rádio e pensei: -Não vai prestar… E não deu outra. Os telejornais se suscederam na veiculação do fato, variando do bizarro, como na Globo onde a Pelajo sapecou uma agri-doce “tentativa de seqüestro do Lulu” logo de cara e o melo-drama da Rede TV onde a Renata Maranhão (que não me deixa dormir) mandou uma coisa mais burguesa, tipo “assaltaram o músico e levaram seu carro importado”.
Só faltou a reconstituição na Globo. Foram até o local, deram a placa do carro,
riqueza de detalhes. E, finalmente, chega o pobre do homem à delegacia, esbaforido e com a verbal metralhadora giratória já devidamente armada num tripé dos tempos do pai militar.
Desabafou, lembrou do carro que se foi, refletiu, meteu culpa nas autoridades, pensou em ir pra Califórnia viver a vida sobre as ondas, convocou o povo a também meter a boca no mundo e jogou a toalha.
O Sr Pragana dos Santos foi o retrato do desgosto e a voz da desilusão de um cidadão que, além de cumpridor de seus deveres, contribui para o enriquecimento cultural de toda a gente.
O poeta foi a pimenta do planeta. Também dos notíciários. E das autoridades.
Malagueta, com certeza.
